Os passos agora estão a meio caminho do segundo andar. O Monstro está terrivelmente próximo. Seus passos descompassados vão se tornando mais definidos, e logo vejo sua figura assombrosa cortando o corredor. Para os quartos de meus filhos.
Meu coração me diz (como todas as noites) para enfrentá-lo e defender minhas crianças. Mas algo mais profundo, e egoísta, me diz para não sair da cama (como todas as noites). O Monstro é forte. O Monstro é perigoso. O Monstro mata.
Ele entra no primeiro quarto – o de meu filho mais velho, com 13 anos – e vejo sua forma (difusa à luz fraca do corredor) sendo absorvida pela escuridão do quarto. A porta se fecha, com um baque forte. Agora sim me levanto (como todas as noites) e vou ate a porta de meu quarto. Fecho-a silenciosamente, e volto para cama – não quero ouvir o que o Monstro faz com meu filho. Não a tranco, porém. Logo o Monstro virá até meu quarto, e se vir a porta trancada, se enfurecerá. Não quero enfurecer o Monstro.
Ouço os sons abafados dos quartos ao lado. Ao sair do quarto de meu filho, vai ao quarto de minha filha de 10 anos. Ao terminar, o Monstro vem ao meu quarto. Posso ouvi-lo abrir a porta com brusquidão. Posso observar sua vinda até minha cama. Posso ver seus olhos. Eu fecho os meus.
Amanhece, a noite se desfaz; e com ela, o Monstro. Estamos à mesa da cozinha. Posso ver o medo e desamparo no rosto de minhas crianças, mas elas nada dizem. Logo todos saem; minhas crianças têm suas aulas, e meu marido tem seu emprego. Ele me beija, e sai junto de meus filhos. Fico sozinha em casa, e, como em todos os dias, é o único momento em que me sinto plenamente segura. E hoje,
plenamente decidida.
Antes de mais nada, as tarefas de casa. O Monstro mostra sua forma logo que o sol se põe, e se as coisas não estiverem em seus conformes, ele se enfurece. Não que isso signifique alguma coisa hoje. Ou a partir de hoje. Vou ao meu quarto, e ponho-me a procurar algo. Logo encontro, já convenientemente carregada, em meio às coisas do Monstro. Ótimo.
Com a coisa já alocada sob meu travesseiro, espero a noite. Busco minhas crianças, e, como em todos os dias, a tensão cresce conforme o dia chega ao fim. Mas hoje, será diferente.
O Monstro chega, mas ainda não em sua forma completa, tentando se camuflar, ainda que já exibindo sua monstruosidade por trás do disfarce. Ajo como em todos os dias. Mas hoje, será diferente.
O Monstro sai. É nossa deixa para ocuparmos nossos papéis, como em todos os dias. O que temos agora é um curto período de paz tensa antes que o Monstro venha em sua forma definitiva. Minhas crianças vão para seus quartos, tensas, e eu vou ao meu. Tensa.
Preparo-me.
“Até que a morte os separe”. Pois bem.
Os passos começam. O costumeiro pânico abafado domina meu estômago. Não viro-me para o lado. Aguardo o Monstro. Estou tensa. Penso em agir logo, mas algo me segura. Não consigo me mover.
Espero.
Prossigo como em todas as noites. Com a porta fechada, ouço os sons abafados nos outros quartos. Então os passos em direção ao meu. Coloco a mão sob o travesseiro, e aguardo. O Monstro está próximo.
Meu pânico ameaça transbordar. Flashes sobre o que aconteceria caso o plano desse errado poluem minha mente. Começo a vacilar. Mas algo me mantém. Minhas crianças. O Monstro vai morrer, de um jeito ou de outro.
Os passos continuam. O medo aumenta. A porta se abre, e vejo a forma do Monstro entrando em meu quarto. A mão sob o travesseiro firma sobre a coisa. O Monstro caminha em direção à cama. Vejo seu rosto. E em seguida seus olhos. Eu vacilo. Eu perco. O Monstro não percebe a mão sob o travesseiro, não é tarde demais. Ele vem em meu rumo. Eu tiro a mão do travesseiro. Novamente, ele não nota.
Minha mão está vazia. Eu perco.
Eu fecho os olhos.
“Até que a morte os separe.”
Pois bem.
Logo amanhece, e a noite se desfaz.
E com ela, o Monstro.
Fonte Aquele Lugar Escuro Lá
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