segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Krueger

Bem, mais uma vez, aqui estou com uma fanfic. Aliás, não sei se fanfic é o termo correto para estas histórias, mas para efeito de comunicação, chamamo-las fanfics. Esta, assim como a primeira, é especial. E assim como a primeira, um pouco de história antes de tudo.

Nunca tive medo real de A Hora do Pesadelo. Diferentemente de Halloween, que me fascinava numa perspectiva aterrorizante, A Hora do Pesadelo me fascinava por outro ângulo, que nada tinha a ver com medo; não sei exprimir exatamente o que eu sentia, e ainda sinto, ao assistir ao filme, mas é algo bem diferente do que a maioria dos filmes de horror proporcionam.

Imaginemos duas situações distintas.
A primeira: Você está sendo perseguido por um assassino, e tem plena consciência disso. Seus amigos desapareceram ou já foram mortos, todos nessa mesma noite, e tudo indica que você é o próximo. O assassino é um homem desconhecido, cujo único objetivo é levar a morte por onde anda. Sua esperança recai no nascer do sol e na baixa expectativa do aparecimento das autoridades.

A segunda: Você está em sua casa, sentado em sua cama, tomado pelo cansaço. Como na primeira situação, você está sendo perseguido por um assassino. Mas existe uma diferença absoluta na situação em questão. Nesta, o assassino não te persegue fisicamente, andando de quarto em quarto, de casa em casa, armado com uma faca à sua procura. Nesta situação, não existem autoridades ou ajuda para você e seus amigos, que vão sendo gradativamente mortos, sem pressa. Nesta situação, o assassino pode se dar ao luxo de esperar, pois sabe, que indiscutivelmente, você cederá e se entregará ao ambiente onde ele com certeza vai te alcançar, e onde não existem esperanças de escape. O assassino em questão se infiltra no lugar mais íntimo, e ao mesmo tempo claustrofóbico, de sua existência.
Seus sonhos. Sua esperança recai em seu próprio auto controle em se manter acordado enquanto puder, rezando para que não caia em sono. O que você sabe que vai ocorrer em alguma hora.

O.k., admito que as descrições das situações tomaram um tom tendencioso, mas isso ajuda a perceberem onde quero chegar: em qual situação você se sente mais seguro? E em qual situação você depositaria as maiores chances de sobrevivência?

É nesse momento onde A Hora do Pesadelo se ergue soberano sobre todos os slashers já feitos. Com Freddy Krueger, a encarnação mais terrível e assombrosa do gênero, a genialidade de A Hora do Pesadelo se sustenta; um vilão o qual não existe escapatória. Um vilão o qual você não vai conseguir fugir, não importa o quanto tente.
E, apenas comprovando tamanha engenhosidade por trás do filme, um vilão que te ataca no único lugar onde a maioria das pessoas se sente plenamente seguro; em sua própria cabeça. Krueger se mostra, ao mesmo tempo, um vilão tenebrosamente real (no sentido material) e mental, uma encarnação literal do Pesadelo.
Por essas e outras eu repito, considero A Hora do Pesadelo como o melhor slasher já feito na história, e indo mais além, um filme que com certeza merece figurar em qualquer top 5 de melhores filme do horror. E por isso, temos a história de hoje.

Pretendo me aprofundar mais incisivamente numa análise de A Hora do Pesadelo posteriormente, abordando principalmente o já mencionado Freddy Krueger. Por ora, mantenho apenas este curto texto, que julgo ser o suficiente para que percebam meu apreço pelo filme, e entendam o porquê de eu escolher Krueger como meu próximo alvo nas fanfics.
Repito o que disse em Halloween (acredito que vai se tornar um bordão):
Para os fãs do filme, espero que se deliciem com a história, uma narração simples sobre a noite fatídica de Freddy Krueger (com uma ou duas referências bem explícitas, porque referência nunca é demais), e espero que compreendam que a história narrada aqui não é a canônica. É a figura de Krueger sob o meu ponto de vista, apenas; preferi não repetir exaustivamente a história letra por letra, de modo que o que vocês lerão é uma bela salada de elementos pertinentes de vários dos filmes - incluindo o famigerado remake. Entendam isso.
Para os não fãs, eu recomendaria que não lessem antes de verem o filme, hehe, mas caso não me escutem, torço para que a história lhes de o impulso necessário para que assistam e desfrutem desta obra prima de Wes Craven.
Boa leitura

E durmam bem.





(O casaco, cadê o casaco?), perguntava-se, ansioso. Já estava com quase tudo em seus conformes; com seu suéter de viagem, seu companheiro chapéu e o resto de suas poucas coisas na pequena mala, Krueger se preparava para deixar seu pequeno galpão; desta vez, sem a intenção de voltar. Mas antes queria achar a porcaria do casaco.

(Cadê essa droga, cadê essa merda), e não encontrava.

(Foda-se), decidiu, depois de um tempo. Queria ir o quanto antes. A vontade voltara, e ele tinha de satisfazê-la logo. Mas não poderia ainda, não enquanto permanecesse nessa cidadezinha idiota. Cidade imunda, na qual nascera e crescera, mas odiava.
Percebeu que tremia levemente de excitação, e se sentou para acalmar a cabeça e repôr as ideias. Colocou as mãos sobre as têmporas e fechou os olhos, repassando tudo mentalmente.



Primeiro ponto importante: fora inocentado. O julgamento de segunda-feira passada fora como um grande banho de alívio, e Freddy sentiu um peso imensurável deixando suas costas. Encontraram os corpos, sim, mas não conseguiram ligá-los a Freddy. Excelente. Parece que o grandalhão lá de cima estava do lado dele, hah.



Segundo ponto importante: fora inocentado, mas agora era um suspeito em potencial para toda a cidade. Com certeza não poderia continuar seu trabalho, não ali, não agora; seus passos estavam sendo observados com cautela. O que leva ao último ponto, evidente porém imprescindível.



Terceiro ponto importante: tinha de sair de Springwood. “Amplie seus horizontes”, não é como dizem? Pois ampliaria, ampliaria bem. Nem sabia para onde ir e por onde começar; pensar nisso já fazia a excitação voltar a dar seus cutucões. Chegara nessa conclusão com base nos dois primeiros pontos e no que ele julgava ser o óbvio: pra quê se restringir? Springwood não apenas era um lugar hostil agora, como era também um agente limitador de seu trabalho. Grandes artistas não se prendem a um único modo de análise, e ele era um senhor artista, o grande Sonhador. As crianças que o digam, com seus Sonhos. Logo, não deveria ficar ali. Deveria se arriscar, tentar novas coisas, novos lugares; novas crianças.



Fora bom enquanto durou? Porra, fora excelente. Fantástico, ele diria. Nunca se sentira tão vivo como quando as impregnava com Sonhos. Quando as colocava para dormir.

Qual foi mesmo a primeira? Lilly… Lilly o quê mesmo? Ah, não importava. Um artista considera os materiais apenas no momento de criação da obra; quando já está feita, só importa o resultado e a análise da obra finalizada. Os meios ficam para trás, e o foco é o conjunto completo. O nome inteiro da garota não importava; o que importava era a obra que ela constituía.

Vira-a em frente ao colégio, lembrava-se disso. Heh, usava o mesmo suéter listrado que usava agora, verde com vermelho. A lembrança lhe vinha como uma brisa doce e suave, perfeitamente confortadora. Estava em frente a um carvalho seco, com o comprido carrinho de sorvete. A aula havia acabado há cerca de quarenta minutos, e não restavam mais do que duas ou três pessoas à calçada do colégio da Rua Elm (coisa de cidade pequena), dentre elas, a pequena Lilly. Ela parecia triste, ele notou. Pais atrasados, tsc, tsc… Ele então a chamou para se aproximar. Quantos anos ela devia ter, uns dez, talvez? Por aí. Achou-a uma criança forte; o descontentamento pelo atraso dos pais se limitava a uma expressão carrancuda e levemente amedrontada, mas nada mais. Não dava a menor indicação de querer chorar, como é comum.

(Já está acostumada com isso, talvez). Mas não interessa. Ela veio ao seu chamado. Inicialmente pareceu preocupada, mas assim que viu o carrinho, se tranquilizou. Ora, por que não um sorvete?

“Você está bem, pequena?”, perguntou ele, em seu melhor tom de voz, carinhoso e preocupado. “Ah, meus pais tão demorando. Mas é normal,”, respondeu a garota, a voz tão inocente quanto seu rosto. “Entendo. Quer um sorvete? Por conta da casa.”, disse ele, ainda sorrindo. Ela sorriu de volta, com uma expressão de quem pergunta ‘sério?’, e como ele continuou sorrindo, ela prosseguiu. Ele a chamou para mais perto, para ela escolher o sabor. Ela deu a volta no carrinho, ficando ao seu lado, e procurou o buraco por onde ele tiraria o sorvete.

Nesse momento, ele agiu.

E ofereceu a ela seus Sonhos.

Colocou a mão esquerda por sobre a boca da menina, com força o suficiente para chegar a prendê-la. Sussurrou um “Bons Sonhos, querida” ao ouvido da garota. E com a mão direita, perfurou-a na barriga, com sua luva. Tudo isso rapidamente, sem que a garota provavelmente notasse o que estava acontecendo.

(A luva), lembrou-se, com um sobressalto. Abriu os olhos e se levantou. Quase se perdera em meio à lembrança de seu primeiro trabalho, mas já se recuperara. O que vinha depois não tinha muita importância, excetuando-se o momento em que encontraram o corpo; essa cena ele queria ter viso, pensou, sonhador. Depois de perfurá-la, depois de colocá-la para dormir, apenas enfiara o corpo dentro do carrinho de sorvete por uma porta na lateral, e enterrara-a ao lado do galpão. E foi assim com todos os outros. Todos os Sonhos. (Foi onde você errou, meu chapa), e fora mesmo.

(Devia ter enterrado em outro lugar. Foi assim que tudo foi à merda).

Mas isso não importava mais. Ora, tudo isso não viera para o bem, no fim das contas? Não o fizera perceber que seu trabalho devia ser expandido para além de Springwood? Não o fizera reconhecer que outras crianças que não as daquela cidade deveriam também receber seus Sonhos? Pois bem. Então menos reclamação e mais atitude. E assim ele foi atrás da luva.

(Essa eu sei onde tá), pensou, divertido. Chegou à caixa logo acima de sua mesa no galpão. Abriu-a com cuidado e retirou a luva. Dissera que os materiais de um artista só serviam no momento de criação, certo? Bem, pois haviam exceções. Alguns instrumentos eram feitos como se parte da obra em si, sendo tão importantes quanto esta finalizada. Como Van Gogh e sua orelha. E mais contemporaneamente, Freddy e sua luva.

Uma luva de operário comum, destra, feita para proteger de queimaduras e coisas do tipo; e, como uma armadura, por cima da luva, havia a contribuição de Freddy. Construíra-a num lapso de criatividade, no momento em que decidira seu futuro. No instante em que resolveu que não seria conhecido pela pessoa que nascera, mas pelas coisas que faria. Quatro grandes garras feitas de aço, afiadas dia e noite, se prolongavam dos dedos à direita do polegar. Além disso, apenas alguns componentes de metal para fixar as garras no tecido da luva. Coisa simples, que qualquer um com um conhecimento mínimo de metalurgia conseguiria fazer. Mas a coisa mais significativa que já fizera em vida.

Observou-a por algum tempo, tal como um pai observa a um filho querido. A luva significava tudo o que fizera, e era tão parte dele quanto seu corpo. Como pudera chegar a esquecê-la? Ainda tomado pela sensação de orgulho e poder, vestiu a luva, pela incontável vez. Suspirou. Nunca se cansaria disso. Vesti-la era quase orgásmico; era como um momento que simbolizava tudo o que faria, um momento que definia todo o seu trabalho, a sua vida. Amava a luva como amava a si mesmo. Como amava o trabalho.

Retirou-a da mão, tentando superar momentaneamente o abraço do prazer (haverá tempo pra isso mais tarde), e levou-a até sua mala. Com todo o cuidado possível, enrolou-a em um pano limpo e depositou-a no interior da valise. Fechou o objeto, e suspirou. Olhou em volta, passando os olhos pelo galpão, com cuidado. Aparentemente nada importante ficava para trás. Pois bem. Pegou a mala pela alça e andou até a porta de ferro que encerrava o galpão. Apagou as luzes amareladas e saiu.

Caminhou em direção ao estacionamento da grande siderúrgica, uma construção gigantesca e imponente que dividia terreno ao galpão onde Krueger vivia. Seu velho carro que comprara com o salário fraco do emprego na mesma siderúrgica se encontrava repousando no estacionamento ali perto, esperando por ele. Conforme andava, olhou para o terreno baldio do outro lado do galpão, onde enterrara-os. A terra ainda se mostrava remexida pelas inúmeras escavações, ocorridas há pouco tempo. Ele sorriu, e voltou a olhar o caminho que devia prosseguir.

Percebeu que havia algo errado assim que visualizou a traseira de seu carro; mesmo em meio à fraca luz alaranjada do pôr do sol, o carro parecia diferente; estava baixo demais. Curioso e levemente nervoso, acelerou o passo para confirmar suas suspeitas. Não notou os outros carros no estacionamento. Deu a volta pelo lado de seu carro, e viu, com um nó na garganta, o que se passava; os quatro pneus estavam rasgados; não furados, mas percorridos com uma lâmina de forma selvagem.
Tiras de borracha pendiam dos pneus, balançado ao vento leste.

Tomado por raiva e medo, ele girou e tornou, como se procurando o feitor daquilo. Julgou ser obra de adolescentes, e estava louco para encontrá-los e mostrá-los que não deviam mexer com ele (Corja desgraçada), pensava, com selvageria, perdido em meio à raiva, considerando até a ideia retirar a luva da mala e ir atrás dos infelizes. Com o sangue pulsando em sua cabeça, quente, e respirando com força, Freddy não notou as pessoas que saíam dos carros no estacionamento; do mesmo modo, não percebeu que iam até sua direção.

(Eu vou pegar quem fez isso eu vou espancar eu vou matar eu vou)

– E aí, Freddy!

Ele se virou com violência, tomado pelo susto. Quem diabos…?

Um grupo grande, com não menos que quinze pessoas, estava ali, subitamente. Contra o sol poente, ele pôde ver vários rostos conhecidos. Dentre eles, o assistente de xerife do condado local, Don Thompson. Quanto aos outros, Freddy percebeu algo que lhe gelou a espinha e, pela primeira vez, fez com que temesse pela própria vida; eram os pais das crianças. E em seus rostos, ódio; um ódio frio e contido, mas estava lá, em cada uma das faces que o encarava.

– É você, Thompson? – Perguntou, com a voz trêmula.

– É, sou eu sim. Você conhece alguns de meus amigos aqui, certo? – Perguntou Don, com o rosto tão cheio de repulsa quanto os outros, repulsa que era refletida em sua voz falsamente polida.

Freddy olhou novamente pelas pessoas, e teve a certeza de suas suspeitas. O que lhe fez ter mais medo. O que fariam com ele?

– Vocês viram alguma coisa sobre quem fez isso com meu carro? Talvez tenham visto os moleques que aprontaram isso. – Disse, dando uma risada rouca no final. A quem queria enganar? Sabia quem fizera aquilo; estava olhando para eles.

– Moleques, heh… vai fazer o quê com eles, Freddy? O mesmo que fez com as crianças?

Aí estava.

Tudo congelou por um instante. Freddy repassou a última frase na cabeça várias vezes, até se convencer de que era aquilo mesmo. Era por isso que estava ali. E já sabia o que fariam com ele.

– Eu… olhe, você, Thompson, sabe muito bem que não tive nada a ver com aquilo. Fui a julgamento, e fui inocentado. Agora, se me dá licença…

– Ah, sim, todos vimos seu “julgamento” – Disse o oficial, exprimindo todo o desprezo que Freddy achou que fosse possível ao dizer a última palavra.
“Todos vimos aquilo, sim. Mas não é a verdade, é, Freddy? Você sabe muito bem, não é?”.

Don deu um passo a frente, e com ele, o resto dos adultos; Freddy recuou dois.

– Eu não sei de nada disso.

– Claro que não sabe. – Disse Don, em tom displicente, avançando mais um pouco.
“Você nunca soube de nada, não é. Eu estava aqui quando acharam os corpos ao lado de seu galpão, Krueger, e estava na delegacia quando ouvimos seu depoimento ridículo!”

– Você não sabe… Para de vir pra cima de mim! – Disse Freddy, acuado contra o carro. Thompson parou.

– Ou o quê? Vai me cortar também? – Agora sorria, um sorriso sem calor algum.

– Eu… – Começou Freddy, mas desistiu.

Sabia aonde aquilo terminaria. Já vira rostos como os daquelas pessoas antes. Conversa não bastaria. Fatos, provas, evidências, se existissem, não bastariam ainda. Aqueles eram rostos obstinados e decididos, rostos que não se desmanchariam enquanto não completassem seu objetivo naquele lugar.
Rostos de quem estava prestes a matar, e não sentiria remorso algum. Sabia identificar bem, pois era o que via todos os dias no espelho. Mas não estava disposto a se entregar facilmente.

Inesperadamente, começou a correr, empurrando o grande grupo com violência. (Pra onde eu vou?), pensou com desespero. Ao fundo, pôde ouvir Thompson dizer “Para os carros, rápido”. Assim, sua mente pareceu se resolver; para o galpão.

Correu e correu, esperando os carros lhe atingirem a qualquer momento, mas não vieram. Ouviu o ronco dos motores, mas eles apenas o seguiram, como se esperassem por aquilo; como se tudo fosse uma grande peça para a qual ensaiaram bem. Logo chegou ao galpão, e esqueceu isso tudo. Abriu a porta de ferro com violência, e fechou-a, selando-a, assim que entrou.

Escorado sobre ela, respirava com força, suado e trêmulo de medo. O que faria agora? Visualizou o telefone, mas não achou que valeria de alguma coisa pedir ajuda à polícia. Diabos, o Thompson lá fora era um deles, e Freddy pôde ver por trás do grupo, ao ser encurralado, uma das viaturas locais. A polícia estava mancomunada aos loucos lá fora. Ainda pensava no que faria, cada vez mais desesperado, quando ouviu o som de derrapagem e de portas batendo.

– SAI DAÍ, KRUEGER, SEU DESGRAÇADO – Disse uma voz de homem, que Freddy não reconheceu. Logo depois, ouviu uma pancada muito forte por sobre a porta.

– SAI DAÍ, DESGRAÇADO, SAI, SAI – Repetia a voz, as pancadas na porta sincronizadas.

– Gray… GRAY – Disse outra voz, que Freddy percebeu pertencer a Don. Um barulho abafado de luta ao lado de fora, e as pancadas pararam. Ouviu vozes ferozes, mas não conseguiu perceber o que diziam. E então, passos se afastando, pesados; e outros se aproximando à porta.

– Krueger? Krueger! – Repetiu Don Thompson, batendo na porta, sem toda a raiva do homem de antes.

“Saia daí e encare isso como homem! Foi frio o bastante pra matar aquelas crianças, então sai daí agora pra gente resolver isso com a justiça que faltou no seu julgamento!”, disse Don, o tom oficial pomposo se opondo ao ódio que revolvia a voz.

Duas pancadas fortes na porta.

– Krueger! É a última vez que eu te chamo. Sai, ou a gente vai resolver isso daqui de fora mesmo!

Freddy não respondeu, estático contra a porta. Ouviu um último comentário bem baixo, como se o policial estivesse falando para si mesmo.

“Que seja, então”
E passos se afastando dali.



Por muito tempo, Freddy esperou. Ou pelo que lhe pareceu muito tempo, pelo menos. Ainda ouvia vozes distintas e ininteligíveis, e sons de portas batendo, dentre outros ruídos que desconhecia. A pressão estava lhe matando; queria ver o que havia do lado de fora, mas a ausência de janelas no galpão o impedia; havia um único círculo de vidro, a uns quatro metros acima da porta de ferro (o teto do galpão era o próprio telhado deste), inalcançável. Já sentia a tentação de abrir a porta e confrontar seus algozes face a face, de fazê-los Sonhar, mas o medo falava mais alto, por ora. Temia pelo que lhe fariam. Temia pela maneira como aquilo terminaria. E por conta disso manteve a porta firmemente fechada.

Passado alguns momentos, o silêncio reinou. Não houve passos ou vozes, ou sons de carro. Nada a não ser a respiração de Freddy. Ele encostou o ouvido por sobre o ferro frio, tentando captar algum ruído, mas nada veio; apreensivo, se afastou da porta, pensando. O que tramavam agora? Nisso, uma pequena luz raiou em sua cabeça. Pegou sua maleta e abriu-a, retirando a luva cuidadosamente envolta nos panos. Vestiu-a, mas sem o prazer das outras vezes; não a vestia para trabalho agora, mas para defender-se. (Que venham, pelo menos um eu marco), pensou, sorrindo pela primeira vez desde que saíra do galpão, contorcendo os dedos e as garras da mão direita. E então, num rompante, o silêncio se desfez.

Primeiro, o som de vidro se quebrando, se rechaçando contra um ponto na parede externa que Freddy achou que fosse logo acima da porta, em seguida de um “FLUSH” muito característico.

(Fogo)

Iriam queimá-lo vivo; tostá-lo; transformar em carne de churrasco; assá-lo como a um porco.

Incrédulo, Freddy foi se afastando aos tropeços da porta de ferro. E novamente, o som de vidro; seguido de seu grito de pavor.

(Eles são loucos, todos loucos, loucos loucos loucos), e lá fora, uma voz:

– MAIS ACIMA!

Sem entender, sua mente ainda afetada pelo pânico, Freddy tentou raciocinar. E compreendeu, com um novo terror;

Miravam na pequena – e única – janela acima da porta.

Ergueu os olhos para a janela, a tempo de ver o clarão laranja se aproximando, e aumentando. O terceiro golpe; e o que entraria. Teve tempo de erguer as mãos para se proteger antes da janela se quebrar e a garrafa entrar rodopiando até atingir o chão à sua frente.

(É muito rápido), pensou, se sentindo tonto, ao ver o fogo se espalhando em uma grande área ao redor do ponto onde a garrafa atingiu. A mesa mais próxima logo foi embebida pelas chamas, que se espalhavam a uma velocidade extraordinária. Por pouco o pé direito de Freddy não foi engolido, e ele se afastou para o canto o mais rápido que podia, até ver que se distanciara muito da porta.

Seus olhos voavam da porta para a janela quebrada, e dali para o fogo no chão que se espalhava, girando como os olhos de um louco. A boca se abria e fechava, e ele nem percebeu que filetes de baba escorriam. Em sua loucura momentânea, gerada pelo pânico absoluto, se deixara levar pela distração, o que significou seu fim.

Fora necessária apenas uma desviada de olhar, da janela para a porta, para que a tragédia se firmasse; Freddy tentou sair do canto o qual se acuara, saltando por cima das chamas que viam em seu rumo, em uma cena cômica; ia para o rumo da porta, quando, em meio caminho, a nova garrafa veio voando pela janela; em câmera lenta, Freddy pôde vê-la rodopiando; girava, e consigo a chama na ponta do pano que saía pela garrafa, em um movimento hipnotizante. Acompanhou todo o movimento da garrafa, desde a entrada pela janela até o momento em que ela explodiu em seu peito.



O fogo se espalhou pelo suéter verde e vermelho, logo alcançando a pele de Freddy (resultando num cheiro nada agradável), indo em direção às suas pernas, braços e rosto. Ele gritou, mais de medo do que propriamente dor – a dor não chegara com força ainda, o estado mental de Freddy já demasiadamente afetado para que percebesse coisas assim.

Com a frente do corpo engolida pelos braços calorosos do fogo, Freddy começou a ir para trás, tropeçando e caindo em meio ao primeiro círculo de chama, sobre o chão. Seu corpo inteiro era abraçado pelo laranja, e suas roupas derretiam-se e grudavam na pele, ardendo. O último vislumbre de Freddy Krueger, para alguém que porventura pudesse enxergar o que se passava dentro do galpão, seria o de uma grande massa de carne e roupa se contorcendo ao chão, berrando (somente berrando, ou algo mais?). Em sua mão direita, quatro grandes garras, avermelhadas pelo calor, se prolongavam, cortando o ar à sua frente, conforme a coisa mexia os braços.



Ao lado de fora, as pessoas observavam, com olhares duros e certos, sua grande obra. Em questão de minutos, todo o galpão ardia; por um tempo considerável, o crepitar das chamas viera acompanhado dos gritos de Krueger, mas logo estes se diruíram, cada vez mais fracos – ainda que mais sofridos. Em questão de horas, nada mais restaria a não ser cinzas. Cerca de duas horas depois do ataque, os participantes voltariam à cidade e acionariam os bombeiros, acerca de o que eles disseram ser “um clarão laranja na siderúrgica”. Uma chuva na madrugada ajudou os bombeiros a apagar o fogo, que queimou firme até então.

No dia seguinte, alguns moradores (dentre eles, Don Thompson) se mobilizaram ao que restou do galpão, para averiguar a situação e ajudar os bombeiros. Encontraram o corpo de Frederick Charles Krueger em meio à madeira e metal do local (que desabara em pouco tempo), a carne levemente cinza pela sujeira, mas ainda residindo com uma nauseante coloração avermelhada. Já não haviam roupas, ou cabelo, ou qualquer coisa que não fosse a pele nu de Freddy. Seu rosto parcialmente escorrido mostrava o fantasma de uma expressão de loucura, a boca escancarada como se ainda gritando. As pálpebras, caídas e distorcidas como o resto do rosto, revelavam pequenas frestas que exibiam o último olhar de Freddy; cego e completamente branco, fixando o céu.

Thompson diria para os amigos (apenas os que participaram da façanha na noite anterior, claro) que, no momento em que vira o corpo de Krueger, se arrependera do que fizera; diria que a visão do homem, morto de forma tão horrível, pesara em sua mente como uma pedra de várias toneladas, e que o atormentava dia e noite, sem pausa; prosseguiria com esse discurso até sua morte (a qual possui uma negra relação com estes acontecimentos), e se trazido de volta, provavelmente o repetiria.

Mentira todas as vezes, é claro.

Don Thompson, em realidade, nunca sentira tamanho prazer como quando vira o corpo de Freddy Krueger estirado e deformado sobre o chão do galpão destruído. E nem por um momento sentira arrependimento ou remorso pelo que fizera; faria de novo, se fosse necessário, por quantas vezes conviesse. Em sua cabeça, não matara um homem, libertara o mundo de um monstro. Tal pensamento era compartilhado pelos outros integrantes do grupo; nenhum deles, nem por um momento, chegou a considerar a hipótese de sentir pena de Freddy Krueger. E todos agradeciam pelo que acontecera.

Uma coisa, porém, se nublara nas divagações de Don Thompson. Algo de pouca importância, em sua opinião, mas curioso. Um único objeto dentro do galpão se salvara, estranhamente, do fogo monstruoso. Sobre a madeira caída, numa posição desconfortavelmente artificial (como se posta ali de propósito; mas por quem?), logo próxima ao corpo, uma luva de proteção industrial se encontrava. Não uma luva qualquer, porém; sobre os quatro dedos logo à direita do polegar, quatro grandes navalhas de aço foram adicionadas; o pano da luva se mostrava intacto, alheio ao estado do lugar onde se encontrava, e da mesma maneira estavam as garras, reluzindo ameaçadoramente à luz do sol.




Assim que caíra sobre o grande círculo de fogo no chão do galpão, Freddy começara a gritar pra valer, gritos que puderam ser ouvidos ao lado de fora e que perduraram por muito tempo, até se silenciarem.

Não gritos de dor, porém, ou gritos de medo.

Gritos vermelhos e quentes como o fogo que rugia, gritos monstruosos que refletiam uma mente exaurida de quaisquer emoções e sentimentos que não apenas um; ódio. Ódio assassino, fervente e ondulante. Todo o resquício de humanidade restante na mente de Freddy (humanidade esta já naturalmente distorcida) agora não passava de lembranças, eliminado por completo.

Don Thompson, em certos termos, não estava errado; não era um homem que residia ali, não mais; não era um humano que queimava e agonizava, mas a personificação mais pura do ódio e monstruosidade. A massa que se contorcia se resumia a um único intento, um objetivo final; vingança plena contra quem fizera isso a ele.

Ódio.

Vingança.

Morte.


E então fez-se.



A maldade humana por si só é difícil de ser explicada por simples palavras; a maldade real vai muito além disso. Há quem diga que o universo é composto de maravilhas e esperanças, de infinidade otimista e conjunções que formam nada mais do que beleza. Para tais sonhadores, fica a constatação dura: a realidade é mais cruel do que isso. Toda a existência, desde os eventos primordiais – além da própria concepção de tempo – até o fim do cosmos – previsto e iminente – pode ser resumida a dois entes simples; Medo e Maldade. Medo, que governa supremo em sua existência. Maldade, que por vezes assume formas tão sombrias que são tão indefiníveis quanto ela própria.

A noite no galpão representa uma dessas formas.

Em circunstâncias normais, Freddy Krueger morreria ali, cercado pelo fogo, consumido aos poucos. Em qualquer outra situação, a história se encerraria nesse instante, o monstro assassino finalmente encarcerado pela própria loucura, eliminado pelas vítimas que reagiram. Seria o fim de Freddy Krueger.

Mas não era uma circunstância normal.

Por alguma razão a qual não cabe explicar, por algum motivo provindo do mistério negro e tenebroso do sentido universal – tão absurdo quanto o ódio de Krueger – algo aconteceu no galpão ao lado da siderúrgica de Springwood. Algo se rompera, ou se firmara, um instante gerado pela junção macabra entre a surrealidade suprema e a Maldade, que culminara no surgimento de algo formado pelas entranhas do Medo em si. O ódio de Freddy, infinito em sua extensão, se unira a algo mais, algo mais profundo e inexplicável do que qualquer outra coisa conhecida (ou desconhecida) na realidade vivente.


E os gritos deram lugar às risadas.

Freddy percebera.


Algo mudara, algo acontecera.

Algo O mudara.


Não mais gritava. A dor era irrelevante. Pois sabia.

Queimava, mas se sentia tão pleno quanto a revelação que subitamente ocupara sua mente consumida: não morreria ali.

Ou melhor dizendo, morreria, mas renasceria.

Maior. Mais forte. Mais puro. Como os Sonhos que oferecia às crianças.


Gargalhava abertamente agora, gargalhadas que poderiam facilmente ser confundidas com gritos, tamanha a loucura contida. Gargalhadas que viam de algo mais do que apenas Freddy Krueger.

Gargalhadas de Pesadelo negro e sedento.

Queimava, mas estava pleno.

Queimava, mas estava intacto.

Que queimasse. Não faria diferença. Não mais.



Os últimos pensamentos de Freddy, antes de ‘morrer’, convergiam para um elemento em especial: Springwood.

Springwood o criara. Springwood o formara da maneira que vivera. Springwood tentara se livrar dele. Mas Springwood não se livraria dele.

Voltaria, isso era claro agora; sua mente não mais se encontrava totalmente possuída pelo ódio, mas apresentava uma racionalidade incompreensivelmente fria e decidida.

Tentara se livrar dele. Acabara com seu trabalho.

Mas não faria diferença. Não mais.

Voltaria, e então prosseguiria com seu trabalho. Prosseguiria com seus Sonhos. Com suas crianças.


Springwood, ahh, Springwood… a melhor cidade para criar seus filhos. Para vê-los crescer, e então vê-los prosseguir com suas vidas. Springwood, Springwood… a cidade dos Sonhos.

Voltaria.

Levaria seu tempo, mas sabia que aconteceria. Eles lhe diziam.

Medo. E Maldade.


Freddy Krueger queimou, Springwood, mas não há tempo para comemorar. Há muito para se ver. E muito para se Sonhar.

Até mais, Springwood, mas não suspire. Não agradeça. Há muito para se ver.


Mas por agora, apenas o aguardo.


Por agora, Springwood,


apenas boa noite.


E bons Sonhos.



E então

fez-se.

Fonte Aquele Lugar Escuro Lá

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